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As expressões do Carnaval e suas origens em exposição

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FolhaPE

O abstrato conceito de folia se atualiza sempre que o Carnaval se aproxima. Neste fevereiro, ele se concretizou em peças em exposição na galeria Vicente do Rêgo Monteiro, no prédio da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby, Centro do Recife. Estão à mostra objetos que representam formas carnavalescas nordestinas como os caretas de Triunfo, no Sertão de Pernambuco, o afoxé baiano Filhos de Gandhy ou os caboclos de pluma do Maranhão. A exposição “Aptidão para a Alegria: Vem de Berço” segue pelo menos até 15 dias antes do período momesco deste ano.

Para uma das curadoras da mostra, a doutora em antropologia Ciema Mello, o Carnaval é formado de tradição e mudanças. “As tradições são mudanças que deram certo. E, aqui na exposição estamos mostrando algumas delas. Como museu de antropologia saímos e dialogamos com o que acontece lá fora, por isso teremos aqui tanto peças antiquíssimas quando peças que se encontram hoje em qualquer loja, como os panos de decoração, algumas máscaras, confetes e lantejoulas”, argumenta.

“Gastamos muito pouco. Isso é importante, já que se trata de uma instituição federal”, opina. A escolha da simplicidade na decoração se relaciona com a perspectiva de Ciema de que o Carnaval é a festa mais universal de todas. “Se alguém bater uma lata, já tem Carnaval. Se duas pessoas baterem, já é uma orquestra. Todo mundo brinca.” O museu oferece uma oportunidade para conhecer melhor as formas de brincar uma das festas mais relevantes do povo nordestino. A Folha de Pernambuco mostra alguns dos objetos da exposição, suas simbologias e origens.

CABOCLO DE LANÇA

No século 19, os índios eram procurados para serem mortos, com o objetivo do roubo de suas terras. De acordo com o professor de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Severino Vicente, foi quando passaram a ser conhecidos como caboclos, para despistar as autoridades. Autor do livro Festa de Caboclo, Severino conta que o maracatu rural surgiu desse contexto. “Os caboclos tentavam retomar os espaços perdidos e surgiram contra as autoridades locais. Principalmente na Zona da Mata Norte de Pernambuco. A polícia os perseguiu até os anos 1940. Era uma brincadeira muito violenta. Com frequência havia brigas entre os grupos, inclusive mortes causadas pelas lanças”, conta Severino.

O professor conta que, nos anos 1980, 13 grandes maracatus assinaram a Associação de Maracatus, colocando fim nas brigas.

Severino explica que o Maracatu encena uma breve história do Brasil. “No brinquedo, primeiro apareciam os índios de pena, com machados, representando os índios que ajudaram os portugueses a cortar a madeira que levariam para a Europa. São pacíficos. Depois aparecem os caboclos de lança. Esses são os índios da guerra, que percebem que estão sendo explorados.”

MATEUS

O Mateus é um personagem que surgiu com o fim da escravidão no Brasil. “Ele aparece zombando de quem os escravizava. Na prática, ele é como um produtor cultural de hoje em dia, porque sua função era ir na frente dos maracatus aos locais de apresentação. Ele via se aquela cidade receberia bem o maracatu. Dependendo do que percebesse, o maracatu seguiria por outro caminho”, explica o historiador Severino Vicente. Mateus aparece sempre com sua companheira, Catirina, e a burrinha. Também é muito importante na brincadeira do Cavalo Marinho, outra festa originária da Zona da Mata Norte.

CALUNGA

A professora de História da UFPE Bartira Ferraz explica que as bonecas que aparecem no Carnaval carregadas por mãos dançantes de mulheres em apresentações de maracatu são as calungas. “É um termo usado em quimbundo para ‘pessoa ilustre’ e, na língua quioco, para dizer ‘mar’, como nos cânticos de macumba e candomblés cariocas e baianos. No dicionário de Luís da Câmara Cascudo, Calunga significa boneca, figura humana ou animal feita de pano, de madeira, de osso ou de metal. A Calunga pode ser considerada como um elemento totêmico no dizer de Mário de Andrade e é usada em rituais e cortejos representando entidades.”

Caretas

Caretas – Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

CARETAS

Os caretas surgiram de uma única pessoa. Um homem que, com um chicote, abria o espaço para as procissões em Triunfo. “Inicialmente, o careta era próprio dos tempos de Páscoa”, contou Severino Vicente, que foi até o local conhecer e estudar o brinquedo. Segundo ele, grupos anônimos utilizando as máscaras passaram a repetir o comportamento desse brincante originário. “Até hoje permanecem anônimos. São pessoas da comunidade, dos bairros próximos, mas não mostram os rostos nem falam quem são. O que mais impressiona é a habilidade de manuseio que eles têm com os chicotes pelas ladeiras de Triunfo.”

LA URSA
La Ursa é pernambucana. Mas não totalmente. “Não haver ursos de verdade em Pernambuco já é uma dica de que a brincadeira é um resquício de folguedos europeus”, conta o doutor em História pela UFPE Severino Vicente. Mais precisamente das brincadeiras de ursos e caçadores, que, inclusive ainda hoje existe no Brasil.

“A La Ursa é uma forma de pedir dinheiro durante o período carnavalesco, ao mesmo tempo em que diverte as pessoas. E essa brincadeira, tendo origem a partir daquela, europeia, é daqui do estado. Tenho visto com muita frequência acontecer na praia, mas não acontece só lá.” Qualquer rua pode ser palco para uma La Ursa.

FANTASIAS

As fantasias, incluindo as máscaras, têm origem no Carnaval de Veneza, na Itália. “A ideia foi trazida ao Brasil e, aqui, como tudo que chega, foi reorganizada à maneira da população local. As pessoas expunham suas fantasias nas ruas, como uma exibição. Mas também há a ideia de viver uma personalidade diferente quando a gente se fantasia”, conta Vicente.

Tela do pintor Bajado

Tela do pintor Bajado – Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

BAJADO

Quatro quadros de Bajados estão expostos. Todos voltados ao carnaval, um dos temas mais recorrentes da obra do pintor maraialense. Bajado tem relação estreita com a folia. De acordo com pesquisa de Regina Coeli Vieira, da Fundaj, ele retratou os clubes carnavalescos de Olinda, Pernambuco, Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante, O Homem da Meia-Noite, Cariri, Vassourinhas, assim como o frevo rasgado na Ribeira, Largo do Amparo, Varadouro, Praça do Carmo. “Sua tendência artística era a liberdade de estética, comum na arte moderna, e suas obras retratavam tanto os folguedos carnavalescos, como também reverenciavam personalidades ilustres da sociedade pernambucana.”

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