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Caetano e Moreno Veloso ironizam rixa entre frevo e axé durante show no Recife

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Diário de Pernambuco

Caetano e Moreno Veloso, já no bis do show familiar que apresentaram nesta terça-feira no Teatro RioMar, no Recife, ironizaram a rixa entre o frevo e o axé, mantida principalmente por pernambucanos. “Vai dar certo isso aqui em Pernambuco?”, brincou o filho mais velho, após pedido do patriarca para entrar no clima carnavalesco com o axé Deusa do amor, de Moreno. Ao questionamento, o pai respondeu com um resgate sobre a relação entre os dois gêneros e recordou a gênese do primo baiano do ritmo centenário. “Vocês sabem a importância do Recife para a gente?”, arrematou Moreno.

Os comentários descontraídos nos intervalos das canções são característica marcante da turnê Caetano Moreno Zeca Tom Veloso. O ícone da música popular brasileira estava falante – muito mais que nos shows solo ou nos duetos recentes ao lado de Gilberto Gil, com quem circulou Brasil e mundo para mostrar a comemorativa Dois amigos, um século de música, e Teresa Cristina, parceira musical cujo próximo show, Teresa canta Noel: Batuque é um privilégio, terá direção musical dele.

Os pés descalços, depois de descartadas as Havaianas, de Tom denunciam: é fruto um encontro informal. Como quem lambe as crias, Caetano apresenta cada música e a participação deles na composição ou como inspiração para tal, quando é o caso, e comenta traços caseiros, como a religiosidade dos filhos. “Zeca e Tom são cristãos. Moreno é macumbeiro”, dispara, com carinho, sobre o termo geralmente utilizado de forma pejorativa, sobre as crenças deles. Caetano é ateu, mas compôs Ofertório para os 90 anos da mãe, Dona Canô, para atender pedido da irmã Mabel, e entoou a canção.

As reações são íntimas. Moreno (44) responde com expressões marcadas: aperta os olhos, arregala-os para o público ou prende a boca em concordância. Mais velho e experiente, assume o papel de “cerimonialista” vez por outra. Tom (25) ri silenciosamente diante dos comentários do pai, notadamente quando confessa ter sido esta ou aquela música uma exigência dele, mesmo que sejam repetidos a cada cidade da viagem. Caçula, Zeca (20) é o mais contido. Por trás do piano, revela-se mesmo na amplitude vocal.

Todos os membros do quarteto Veloso em palco são compositores, cantores e instrumentistas. As revelações de Caê permitem adentrar a família musical e imaginar o surgimento das parcerias, a primeira delas quando Moreno tinha apenas 9 anos, Um canto de afoxé para o bloco do Ilê. Os quatro permanecem sempre no palco. Dividem-se entre cinco bancos – as mudanças são decorrentes dos instrumentos tocados -, diante de um cenário minimalista sustentado no jogo de luzes.

Como esperado, tanto pelo tempo quanto pela popularidade da carreira, as composições de Caetano são maioria no repertório. Ele ainda inseriu uma inédita, acompanhada por passinhos de Tom: o funk Alexandrino, no qual, ao som do batidão, evoca os ortodoxos versos alexandrinos (de doze sílabas por verso) e ainda poetas como o parnasiano Olavo Bilac ao mesmo tempo em que exalta o baile, o bairro da periferia Vigário Geral e menciona novinhas.

Reconvexo, Gente, Oração ao tempo e Força estranha foram alguns clássicos escolhidos. O leãozinho foi interpretada por Moreno, por exigência do pai. “Eu tive que aprender”, revelou ele. “Mas até que é bonitinha”, finalizou, em tom de brincadeira. Todo homem, primeiro single do projeto, lançado no YouTube, do CD e DVD gravado no Theatro Net São Paulo e com lançamento previsto para este ano, foi executado por Zeca – o autor – ao piano, com apoio dos três.

De Moreno, entraram músicas como Um passo à frente, gravada por Gal Costa, uma das principais intérpretes das músicas do pai, ou Um só lugar, parceria com Cézar Mendes, a quem é dedicado o show, mas também o samba em inglês How beautiful could a being be, com a qual, ainda adolescente, presenteou o pai. O encerramento – pode-se dizer inesperado – é com Tá escrito, de Xande de Pilares. Mas, como se sabe, em reunião de família, pode tudo.

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